Textos

Eu tenho medo do escuro

Nunca me considerei uma pessoa apegada. Talvez não quisesse acreditar que fosse. Aquela velha história de fingir que não sente algo, porque talvez assim a sensação vá embora. Reprimir também seria uma boa palavra para descrever isso. A questão é que eu sempre me considerei muito livre, muito mente aberta e muito corajosa por não ter medo de altura, adorar montanha russa, tirolesa e todas essas atividades que fazem o coração disparar. Muito aventureira por gostar de fazer trilhas.

Mas a verdade é que lá no fundo, como diz aquela música da Vanessa da Mata, “eu tenho medo do escuro, eu tenho medo do inseguro”. Bem lá no fundo, aquela mesma parte de mim que adora altura e liberdade, também tem medo do desapego. A mesma parte que adora o vento batendo no rosto e coração acelerado, tem um medo enorme do incerto. Detesta tudo o que não seja claro. Prefere pessoas francas e abertas, àquelas em que é preciso cavar continuamente para tentar entender o que se passa lá dentro.

Não, definitivamente eu não gosto de não saber, não enxergar, não entender, não conhecer. E foi preciso sair da minha zona de conforto para perceber isso. Foi preciso estar em um lugar onde eu não tinha amigos, não conhecia os meu colegas e nem a faculdade, para perceber o quanto sou apegada às minhas origens. Logo eu, que nunca me imaginei “presa” emocionalmente a lugar nenhum, me peguei sentindo uma saudade enorme de tudo o que eu conhecia e ficou para trás.

Estar em um lugar novo, com outra cultura, cercada de pessoas estranhas, é como tentar enxergar no escuro. E desde criança o escuro sempre foi um dos meus maiores medos, porque é imprevisível. Nunca se sabe o que esperar. Mas descobri que o incerto às vezes nos reserva experiências incríveis. A maior liberdade não é se atirar de um lugar alto presa por uma corda, mas sair da zona de conforto e tudo o que conhecemos para superar os medos internos.

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