Textos

O nosso tempo

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Dizem que o tempo cura todas as feridas. Que na vastidão desse universo ele passa conforme o ritmo de cada um. Às vezes voa, às vezes rasteja, às vezes acaba e também recomeça. Ele leva junto com o vento as folhas amareladas que caem das árvores, histórias que mal começaram, sussurros tão leves quanto uma brisa, e – alguns ousam dizer – que leva até o amor. 

Sinto ser a pessoa do contra, mas o tempo não curou todas as minhas feridas. Não levou embora a saudade da nosso relacionamento que mal começou. O tempo, esse rei que todos julgam estar no direito de mandar e desmandar na vida das pessoas, brincou comigo como se fosse um fantoche. Fez da minha vida amorosa uma história digna da mais dramática peça de teatro.

Ele fez você ir embora por motivos que até hoje não entendo e desde então ninguém mais quis ficar por muito tempo. Ninguém queria o fardo de remendar as minhas cicatrizes, tapar os buracos, aliviar a dor. O mais engraçado é que antes do nosso romance começar, todos diziam, desde a nossa infância, que estávamos destinados a ficar juntos. O que ninguém disse é que paixões decorrente de longas amizades raramente tendem a dar certo. Pelo menos no meu caso.

Não foi você, com seu sorriso sarcástico e olhos azuis nos quais qualquer garota pediria para se afogar. Certamente não fui eu, que descobri tardiamente os seus sentimentos por mim. Não fomos nós. Se for para apontar alguém, então culparemos o tempo. Esse “ser” que fez de nosso romance algo insignificante. Que nos colocou na vida um do outro desde crianças, nos tornou amigos e bem mais tarde nos fez descobrir o primeiro amor, para então te fazer partir pela mesma porta que entrou.

O que dói não é perder uma paixão, um amante. O que dói é perder, além disso, um grande amigo. É saber que a nossa amizade, a cumplicidade e o fato de que conseguíamos nos comunicar sem precisar dizer uma palavra, ficarão apenas na memória. Talvez seja algo que um dia contaremos para os nossos netos, quando nos perguntarem sobre o primeiro amor. E um dia iremos sorrir, porque sei que apesar de tudo não serei a única a lembrar. 

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Este post foi escrito para o desafio Imagem&Palavra do grupo Interative-se, onde deveria escrever um texto com a palavra INSIGNIFICÂNCIA.

desafio

0 Comments

  1. É, às vezes a vida prega essas peças. Tive uma paixão na adolescência, acabamos nos afastando e nos reencontrando após 32 anos pelas redes sociais. O carinho permanece, mas seguimos em direções opostas. Não há o que fazer a não ser torcer para que o outro seja feliz.

  2. “O que ninguém disse é que paixões decorrente de longas amizades raramente tendem a dar certo. Pelo menos no meu caso.

    Não deu certo comigo também, Kim. Sei bem como é essa perda dupla do amor amigo. E senti as dores da personagem como se fossem as minhas, de dois anos atrás. Eu espero que tenha sido tudo fictício, porque se baseado no real, é triste.

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

  3. Ai me deu uma coisa aqui lendo isso, porque é triste e real e sei lá, tô confusa!!! kkk Você descreveu tão bem o sentimento, a ideia de que o tempo cura tudo (balela, né?!) e o fato de que expectativas às vezes são tão traiçoeiras… Não sei, acho que tem tanta verdade nisso, algumas coisas, por mais que possam não aparentar, são incuráveis.
    Enquanto eu lia fiquei pensando que era alguém me relatando essa história e só pude pensar que a gente (eu e tu) nos conhecemos e estávamos papeando e tomando um café (eu estaria bebendo chá, não curto café) e ambas estaríamos falando das mazelas da vida e tudo o mais… kkkkk Doida, é, disso você já sabe né? Mas tô contando pra dizer que senti a presença que o texto quis passar, porque, como sempre (estou ficando repetitiva já), você brilha nos seus textos!!! <3
    E quanto ao tempo, bem, à ele, só nos resta dar tempo… <3
    xoxo

    1. Oi Rê! Eu adoro ver seus comentários por aqui, sempre têm alguma coisa à acrescentar, muito obrigada! Também concordo que essa história do tempo curar todas as feridas não passa de pura conversa.
      Agora que você falou sobre tomar um café, chá no seu caso ( eu café porque sou viciada haha), fiquei imaginando muito essa cena, e conversando tudo sobre a vida. Até porque quando leio os seus textos também tenho exatamente essa sensação de proximidade e a presença do texto (acho que somos duas loucas kkk). Mas acho que isso acontece porque por mais que alguém escreva algo fictício, sempre tem um pouquinho da pessoa que escreve. Beijoos

      1. Tava tendo um feeling que você curte café… ahahaha
        A gente então vai sentar e tomar um café /chá qualquer dia desses e falar da vida!
        A gente podia até fazer um projeto duplo e cada uma fazer um texto com esse tema, o que tu acha? ahaha Olha eu já viajando aqui! Não me dá corda que eu pulo!!! kkk
        🙂

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