Textos

Mudança

Troquei os móveis de lugar. Pintei as paredes. Mudei os armários da cozinha. Reformei o quarto. Fiz uma limpa no guarda roupa e em tudo que parecia ocupar espaço demais dentro de casa. Vendi o teclado que você insistia em tocar.  Retirei a coleção colorida de vasos de flores que você pintou para “alegrar” a cozinha. Troquei até os lençóis da minha cama.

Nada disso adiantou. Ainda havia você por todo canto dessa enorme casa. Descendo o corrimão das escadas; cantando; reclamando da pouca luz que entrava pelas janelas; sorrindo; tentando tocar violão, guitarra e mais uma infinidade de instrumentos que conseguiu em uma venda de garagem anos atrás, quando sonhava em montar um banda. Você dizia que era música, eu insistia que era apenas barulho. Mas juro que nunca escutei barulho mais alegre.

Vez ou outra, mesmo sem fazer esforço para me concentrar, ainda posso escutar esse barulho. Na época em que você ainda não se sentia entediada com vida de casal. Na época em que qualquer forma de arte, principalmente a música, era o suficiente para nos unir.

Não te culpo por ir embora. Por buscar aventura, no lugar da rotina. Por procurar um romance de novela. Por tentar reviver o seu sonho de adolescente, que você deixou de lado para tentar permanecer ao meu lado. Por querer mais do que essa vida que tem cada passo planejado.  É uma coragem que eu invejo, porque apesar de tudo não consegui me desfazer dessa casa que por tanto tempo foi nossa.

Só fique sabendo, caso queira voltar, que todas as portas continuam abertas. Seus livros ainda tem aquele lugar sagrado na estante antiga, a única coisa que não mudei. Algumas histórias precisam ser contadas, mesmo quando achamos que acabou.

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